Reflexões sobre um domingo sombrio

Reflexões sobre um domingo sombrio

Se junho de 2013 foi o “mês que parou o Brasil” (como rotulou o jornal Folha de São Paulo em seu documentário), outubro de 2014 pode vir a ser o mês que afundará o Brasil em um período de políticas autoritárias e antidemocráticas. Como foi divulgado pelo Diap, a partir do ano que vem, o Brasil terá o Congresso mais conservador desde 1964 (ano em que ocorreu o golpe que impôs a ditadura militar nesse país). E tal fato precisa de uma reflexão profunda e qualificada para um entendimento crítico dos caminhos que serão traçados nos próximos anos. É importante ressaltar que esse pequeno texto não tem tamanha pretensão. O que se procura fazer aqui é destacar alguns elementos e hipóteses que relacionem as manifestações de junho com as eleições de outubro.

Ora, se a princípio, o motivo que levou a juventude às ruas foi o aumento da tarifa do ônibus, trens e metrô, e a não concordância com o encarecimento de um serviço cuja qualidade é totalmente falha; em um segundo momento o que intensificou a ida de muitos às ruas foi a repressão da PM contra os manifestantes, fazendo com que a “opinião pública” passasse a apoiar os protestos contra o aumento das passagens e agora o direito a protestar – nesse momento surge o slogan “não é só por 20 centavos, é por direitos”. A partir desse momento, uma série de pautas difusas toma conta das ruas, inclusive, pautas conservadoras.

Com isso, uma mobilização que possuía pautas de esquerda – luta por um transporte público e de qualidade para todos; o direito democrático de se manifestar, garantido constitucionalmente; uma maior participação popular na política, já que aqueles que deveriam nos representar estavam distantes e alheios aos interesses coletivos presentes na sociedade civil – passou a ter pautas de direita, como, por exemplo, a proibição e agressão aos membros de partidos ou movimentos sociais que fossem às ruas, a redução da maioridade penal, e em alguns casos, a defesa da ditadura militar.

Assim, o tal “gigante” que havia acordado passou a demonstrar o seu autoritarismo e a sua despolitização. Pois, o problema não estava no partido A, B, C ou D, mas sim no sistema político que afastava a população do jogo, fazendo com que a democracia representativa não representasse a pluralidade existente nesse país, que veio mudando nos últimos 20 anos.

Passado a euforia conservadora, o “gigante” voltou a dormir. Porém, parece que no último domingo, ele resolveu acordar novamente e, de forma mais discreta, causou um grande estrago.

Se a ideia era “protestar nas urnas”, algo deu errado. Como dito anteriormente, o problema não é o partido A, B, C ou D, mas sim o sistema político e o modo como ele se relaciona com a sociedade civil. Após as eleições de domingo, o que se viu é que boa parte dos escolhidos para jogar o jogo político não tem muita afinidade com os movimentos sociais, com os direitos humanos, com a representatividade democrática, com o respeito à diversidade, com o reconhecimento de direitos às minorias (movimento LGBT; movimento negro; movimento feminista; movimentos ambientalistas; etc.).

Com isso, os que foram às ruas em 2013 defendendo mais direitos, mais respeito e mais democracia, sentiu uma frustração enorme. O Congresso, casa que representa o povo, não adquiriu o caráter progressista e democrático tão esperado. Aliás, ocorreu o contrário. Talvez porque o caráter real do brasileiro seja esse mesmo: conservador. Ou talvez porque a despolitização das pessoas não permitiu que elas escolhessem candidatos que tenham se empenhado na construção de uma sociedade mais respeitosa, livre, justa e democrática. Para os que defendem esse modelo de sociedade, a certeza é uma só: a luta ficou mais difícil.

Rene Araujo é cientista social e professor de sociologia e filosofia no ensino médio

Next Post:
Previous Post:
This article was written by

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *