O importante é o principal, o resto é secundário

O importante é o principal, o resto é secundário

Parece uma afirmação banal, um candidato a bordão ou a clichê. Mas não é. Certas frases, como esta do presidente Luis Inácio Lula da Silva, ironizam uma determinada visão de mundo, a que se tornou dominante no reinado do pensamento único.

Acabei de ver com meus alunos o filme 1984 (li o livro há trinta anos) e o personagem Winston, funcionário do Ministério da Verdade, se encaixa perfeitamente no modelo em questão: o de criador, a despeito de si mesmo, de verdades encomendadas. Sua função é a de remendar a história, criando ou destruindo evidências, de modo que o discurso reforce o único pensamento aceitável: o dominante.

Ninguém estará imune, nem mesmo ele, às mentiras que são contadas como verdades pelos meios de comunicação. Quando Winston passa a questionar seu papel, sofre uma lavagem cerebral e volta a reverberar, com paixão, o apreço unânime pela mentira, celebrada como verdade. Na cena final ele ergue os braços gritando com todo mundo: “Vida longa ao Big Brother!”

O discurso único, que sustenta e fortalece o pensamento único, tem seu fundamento na ocultação do contraditório: não só de evidências contrárias à tese como também no uso inteligente da conjunção se.

Neste caso, li recentemente uma provocação que diz mais ou menos o seguinte: se Lula, por algum motivo, requeresse a posse do triplex em questão, algum juiz no mundo daria ganho de causa a ele com base na documentação existente? Ele obteria, por intermédio das provas arroladas, a posse do bem em questão?

Certamente não!

O discurso linear, o pensamento que elimina a hipótese contrária, é confortável. Ele não exige esforço mental, bastando ao receptor aceitá-lo e erguer os punhos em sinal de concordância. O máximo de debate, neste caso ao redor da mesinha de café do escritório logo após assistir a um dos telejornais matutinos, será sobre qual a melhor pena a ser aplicada ao acusado – isto é, a quem, mesmo sem provas e antes mesmo de qualquer sentença judicial, o discurso único já decidiu pela culpa.

Foto de Ricardo Stuckert

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escritor e professor (Instituto Federal de São Paulo – Campus Salto).

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