Lembre-se, Lembre-se do 20 de novembro

Lembre-se, Lembre-se do 20 de novembro

Nos últimos anos venho escrevendo e refletindo sobre o dia de hoje. Para muitos, uma data qualquer, mais um feriado para lazer e diversão. Para outros, uma data repleta de significados e luta. Assim como o 8 de março (Dia Internacional da Mulher), o Dia da Consciência Negra é uma data que simboliza a resistência e a luta daquelxs que foram postos à margem na sociedade brasileira. Essa marginalização histórica mostra-se atual quando observamos mais atentamente o modo como são dadas as relações políticas-culturais-sociais em nosso país.

Chama atenção os altos índices de assassinatos cometidos contra a juventude negra (cerca de 23 mil jovens negros entre 15 e 29 anos foram mortos em 2012 no Brasil, segundo a Anistia Internacional, como o Edi Rock cantou “Me ver pobre, preso ou morto já é cultural”; outro ponto é a quase inexistência da população negra nas carreiras mais tradicionais das universidades públicas; o mercado de trabalho é outra esfera que reproduz essa marginalização, pois, segundo uma pesquisa feita pelo IBGE em 2013, os negros recebem aproximadamente 57% do salário ao exercerem a mesma tarefa que pessoas brancas.

Fora isso, é importante olharmos e darmos atenção para a representação midiática do negro. Primeiro que a parcela de negros na imprensa não condiz com a realidade nacional, qualquer estrangeiro que vir o Brasil através da nossa imprensa chegará à conclusão de que o Brasil é um país branco e isso não é verdade; segundo, a estereotipação e estigmatização imposta à população negra é algo violento e repleto de preconceitos, um crime.

O equívoco (ou hipocrisia) é que – como já observou o mestre Florestan Fernandes – no Brasil, as pessoas têm preconceito de ter preconceito. Ou seja, reconhecemos que existe racismo, machismo, homofobia, etc. em nosso ambiente social, e sempre exportamos tais preconceitos para os outros, dificilmente admitimos tê-los em nós mesmos, em nossas práticas cotidianas.

Assim, é como se os problemas não existissem na nossa forma de ver a realidade social, fazendo com que reproduzíssemos os mesmos preconceitos que observamos apenas nos outros.

Isso ficou perceptível em diversos momentos esse ano, com os casos de racismo presenciados no nosso querido futebol. Daniel Alves, Arouca, Tinga, e Aranha, em diferentes lugares e circunstâncias, foram vítimas de racismo. Pois bem, o modo como a imprensa brasileira abordou e a opinião pública reagiu precisa ser analisado mais atentamente. E quando isso é feito, percebe-se que a análise de Florestan continua extremamente atual. Nossa mídia “repudiou” veementemente as ofensas racistas dos torcedores, mas ela própria tem a sua parcela de responsabilidade por isso, devido ao modo como sempre representou os negros, construindo no imaginário social uma figura caricata do povo e da cultura afro-brasileira, reforçando muitas vezes a sua marginalização ao negar-lhe espaço e representatividade. Por outro lado, muitas pessoas comuns se “solidarizaram” com os jogadores, mas não com o morador de rua, com enfermeiro, com o professor, com o vendedor, com o garçom, tratando-os, muitas vezes, como se fossem “suspeitos” (no Brasil, o negro sempre é suspeito). Ou seja, aquela velha máxima de que “eu não sou racista, mas…”.

É por isso que o dia 20 de novembro é um dia de reflexão e resistência. Pois é preciso ter consciência de que as feridas de séculos de escravidão e marginalização continuam abertas em nossa sociedade, e sangram. E como sangram. Quem vivencia isso sabe bem. Resistir, enfrentar e desconstruir o racismo institucional, cultural e histórico estabelecido é um dever de todos aqueles que procuram um mundo mais humano. E essa data deve nos levar a isso. Enfim, é preciso debater e passar a história do Brasil a limpo; pois, “Periferias, vielas e cortiços/ Você deve tá pensando / O que você tem a ver com isso”.

Salve guerreiros! Pois a luta é constante.

Arte: Anizio Silva

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cientista social e professor de sociologia e filosofia no ensino médio

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