Cenários

Cenários

Para quem nunca teve dúvida que foi golpe, penso ser necessário analisar os desdobramentos das notícias de ontem, 17 de maio de 2017.

Dizíamos desde o segundo semestre do ano passado que o golpe ainda estava em marcha e que, eventualmente, o governo golpista cairia no primeiro semestre de 2017, abrindo assim a possibilidade de eleição indireta para presidente.

Bingo!

Mas e daí? Isso é tudo?

De jeito nenhum. Aprendi com excelentes professores que a primeira pergunta que devemos fazer diante de acontecimentos graves como um golpe é: a quem interessa?

As várias emendas à constituição que retiram direitos da população, enviadas ao Congresso pelo Executivo golpista, respondem à questão. O golpe foi orquestrado pelo grande capital, pelos interesses das grandes petroleiras internacionais, bancos e investidores em busca de maximização de lucros. Em prejuízo de quem? Dos pobres, dos trabalhadores e dos marginalizados e excluídos: afrodescendentes, homossexuais, mulheres, povos indígenas, trabalhadores rurais sem terra, etc.

Mas como dizíamos, o golpe ainda está em marcha, sendo imprescindível para seus articuladores impedir a volta, via eleições diretas, do grupo adversário, derrubado pelo impeachment. O crescimento da popularidade de Lula, a despeito das acusações sem provas, e a dificuldade enfrentada por Temer em aprovar no Congresso a reforma trabalhista e da previdência (graças às pressões populares), disparou o sinal de alerta.

Temer não dará conta do trabalho sujo.

Pior, a ascensão da esquerda nas ruas e a popularidade crescente de um de seus líderes trará uma reviravolta em menos de dois anos, frustrando os interesses do grande capital.

O que fazer, então?

Viabilizar a eleição indireta, que elegerá, via Congresso (o mesmo que desferiu o golpe e que vem aprovando medidas impopulares), o (a) novo (a) presidente. Deve ser alguém acima de qualquer suspeita e que terá, no entender dos conspiradores, “legitimidade” para implementar as demais emendas da maldade, em benefício do grande capital.

Qual foi e é o papel da grande mídia no desenrolar do golpe?

Cenários:

  1. Durante todo esse tempo, que teve início nas jornadas de 2013, o jornalismo da Rede Globo (por exemplo, mas não só) agiu sempre de boa fé, investigando com neutralidade todos os envolvidos nas acusações de corrupção. Nesse cenário, seus jornalistas e editores não teriam identificado as verdadeiras razões da seletividade por parte do judiciário nos vazamentos de acusações a políticos de esquerda, isto é, aos que defendem os direitos dos trabalhadores, dos marginalizados, dos excluídos. Ou seja, a grande mídia foi também vítima da desinformação (?), gerada pela incompetência de seus profissionais.
  2. Ao longo da conspiração, o jornalismo em questão participou da conspiração, omitindo informações e análises que indicavam sim tratar-se de um golpe em marcha em benefício do grande capital e em prejuízo dos trabalhadores e excluídos. Neste caso, como é óbvio, o golpe não terá se consumado. Sua marcha, com a queda iminente de Temer, envolve diretamente os grandes formadores de opinião, cujos interesses estão associados ao grande capital.

Se o cenário 1 fizer sentido, não temos como levar a sério o jornalismo da grande mídia.

Se o cenário 2 fizer sentido, é preciso analisar outros cenários, relacionados ao comportamento da população diante dos fatos:

  1. A população acatará todos os desdobramentos, entre os quais a eleição via Congresso de um novo (a) presidente, mesmo com a oposição de uma parcela que pleiteia por eleições diretas. Neste caso, possivelmente as demais medidas golpistas (emendas da maldade) prosseguiriam.
  2. A população, desiludida com o jogo político, estará apta a aceitar uma intervenção “de fora”, isto é, de forças que não participam (no seu entendimento) da política – não necessariamente de militares, mas também. Neste caso, o fechamento do Congresso e outras medidas muito utilizadas ao longo de uma história de golpes no país não estariam descartados. Caso a parcela politizada da população resistisse, mecanismos de “inteligência” e de violência institucionalizada estariam à mão, como sempre estiveram. E o golpe contra os direitos do povo continuariam.
  3. A população, em massa, exigirá eleições gerais, isto é, para o Executivo e Legislativo. Dependendo da correlação de forças, os golpistas recuariam.
  4. A população se dividirá, acirrando os radicalismos e ensejando a intervenção de forças de segurança. Os desdobramentos, nessa hipótese, cabem ao imponderável.

Conclusão:

O golpe ainda está em curso e cabe a cada um de nós analisar, debater e, claro, se manifestar antes que seja tarde.

Foto de Jorge William

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This article was written by

escritor e professor (Instituto Federal de São Paulo – Campus Salto).

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