A anta

A anta

Havia um sonho de civilização.

Nele, não haveria diferença entre branco e preto, masculino e feminino, hétero e homo, crente e descrente, sul e norte, trabalho e trabalho. Sim, haveria diferenças, mas não faria diferença se durmo de noite ou de dia, se gosto de rock ou de samba, se falo português ou tupi et cetera.

Como eu disse, havia um sonho e, por assim dizer, um caminho tímido, mas um caminho. Acontece que uma anta de proporções gigantescas empacou pouco além da linha de partida e ficou difícil enxergar a linha de chegada. A anta evacuava e vomitava, de modo que alguns jovens se vestiram de faxineira e gari e resolveram fazer de conta.

Parece que a anta sempre esteve lá, no meio do caminho, à espera dos jovens que sabem fingir – pois há muito em comum entre anta gigantesca, estrume, vômito e jovens que sabem fingir.

E quanto ao sonho de civilização?

Espero que meu filho também o sonhe, a despeito da anta e de certos jovens.

Foto: Reprodução

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escritor e professor (Instituto Federal de São Paulo – Campus Salto).

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